Um olhar para a interpretação consecutiva

Tempo de leitura: menos de 1 minuto

Autor: Alain François
Revisora: Meg Batalha

1 – Quando dos 25 anos do SAMU em Porto Alegre, fui interpretar uma jornada comemorativa com a participação de um dos fundadores desse serviço, na França, um médico egípcio muito simpático. Como ele era bem acessível, num intervalo, fui consultá-lo para saber, de quem entende, como seria melhor traduzir em francês alguns termos e expressões usadas nas diferentes palestras em português, como “receber alta”, entre outras. Aproveitei a deixa para lhe perguntar do que falaria. Ele me respondeu: “Um texto que tenho pronto para essas oportunidades. É um histórico do SAMU, desde sua fundação até nossos dias. Por que não me pediu? Teria mandado por e-mail com o maior prazer!”

2 – O palestrante era um escritor ruandês. Como sempre, perguntei ao cliente, entre outras coisas, qual seria o tema do evento e se tinha algum texto para me servir de base. A resposta veio na véspera da palestra: “Da idade média até o mundo pós-moderno. O cara é muito bom, pode falar de qualquer assunto durante horas”. Avisei que assim seria difícil me preparar e acabei combinando de ir almoçar com eles antes do evento para obter mais detalhes. E o tema era: “O genocídio em Ruanda”. Tentei apelar para a minha memória (havia acompanhado as notícias na imprensa francesa, na época, mas já haviam se passado mais de 15 anos…). Após o almoço, fiz algumas perguntas para tentar me situar, mas cinco minutos não bastaram. Moral da história, fiz uma salada de tutsis e hutus que ninguém deve ter apreciado.

3 – Para terminar, um sociólogo famoso, daqueles que enchem a bibliografia de todo acadêmico da área que se preza. O cliente conhecia o meu trabalho de longa data e havia me mandado o texto uns quinze dias antes. Tratava-se de uma fala extremamente teórica. Sem saber se o palestrante iria ler o texto ou dissertar em torno dele, fiz uma pré-tradução, pois poucos sabem, além dos intérpretes, que quando uma pessoa lê, por mais que ache que está lendo devagar, fala muito, mas muito mais rápido do que, digamos, um William Bonner. Assim eu estava precavido em caso de leitura e preparado em caso de fala livre. Antes da palestra, expliquei ao orador que, como a tradução seria consecutiva, o melhor era ele falar frases curtas, assim ele falava, eu traduzia, ele falava, eu traduzia, etc. e que a gente logo pegaria um ritmo e que fluiria muito bem. Ele me disse: “Ah não, assim não funciona, o melhor é eu falar uns 5-10 minutos e depois você resume”. Informei que não conseguia trabalhar assim, pois não me sentia competente para resumir as suas falas. Nisso fomos sentar à mesa e ele começou a falar. Logo percebi que teria que ser do jeito dele. Como havia pressentindo que isso ia acontecer, já havia separado papel rascunho e uma caneta que sempre trago na minha pasta. Afinal de contas, sou intérprete e, embora não goste muito de trabalhar dessa forma, era só tomar umas notas e traduzir a partir delas. Ficaria chato, pois sempre demoro um tempinho depois da fala para terminar de redigir. O que ignorava, era que ele tinha pavor ao silêncio nas palestras. Logo após o primeiro trecho de uns cinco minutos, quando viu que eu ainda estava anotando, ele me disse. “Não, não pode haver silêncio, senão fica muito chato”. E para não deixar tempo morto, o melhor que ele achou foi retomar a sua comunicação. Em suma, acabei traduzindo 30-40% do que ele falou. Não sei se ele pensou que eu estava resumindo, mas eu estava apenas dando um apanhado do de que conseguia me lembrar…

Bem, esses três exemplos de interpretação consecutiva, cada uma num grau diferente, me deixaram obviamente insatisfeito. Mas, será que isso poderia ter sido evitado?
No primeiro caso, o cliente era uma agência e, apesar do meu pedido, eles nem se deram ao luxo de contatar o palestrante. A isso chamo de “complexo de inferioridade”. Parece que, para quem nos contrata, o orador é um deus intocável e, já ouvi isso de várias pessoas que contrataram os meus serviços, “não se deve incomodar o palestrante”. No melhor dos casos, recebo uma resposta tímida do tipo: “Você não poderia cuidar disso, vou te mandar o e-mail dele”, o que resolve o problema, pois consigo as informações de que preciso para oferecer um serviço de qualidade. A maioria desses falantes já está muito acostumada com isso e sabe que se o intérprete não está preparado, a tradução pode não ser boa. E nunca vi ninguém se recusar a me passar o texto ou dar detalhes. Enfim, a nossa tradução foi correta e não prejudicamos o evento, apesar de ter ficado com o gosto amargo na boca de que podia ter sido muito melhor.

No segundo caso, de novo, o cliente estava mais preocupado com o bem-estar do palestrante do que com a tradução. Se ele tivesse me informado nem que fosse apenas o tema, eu teria podido me preparar e fazer uma tradução digna desse nome. Infelizmente, a primeira parte da palestra ficou muito confusa. A minha sorte foi que, felizmente, ele logo passou a falar de seus livros sobre o genocídio e a atitudes do intelectuais ruandeses e dos países circunvizinhos e o resto foi decente. Mas, como era uma interpretação consecutiva, confesso que senti certo desconforto diante do público abundante, pois estava muito claro que eu estava perdido.
O terceiro caso foi uma tragédia. Eu tinha feito tudo certo. Apesar de o texto ser extremamente teórico e árido, o tinha traduzido por escrito e sentia-me bastante seguro. Mas não bastou, pois ele não quis ouvir o profissional e decidiu seguir o andamento dele. Foi difícil eu olhar na cara de quem quer seja no auditório após o término da palestra.

Enfim, este último caso é muito atípico, já que eu estava preparado. Uns tempos depois, assistindo a excelente palestra do meu colega Marco Gonçalves, descobri que a tecnologia podia ter me salvo. Tarde demais! Mas nos dois outros, a tradução ficou abaixo do meu padrão por não ter podido me preparar. E todos sabemos que o público não sabe, nem quer saber disso. Para ele, o intérprete é que é ruim. Isto mostra que é preciso trabalhar também para “educar” os clientes e as agências que nos contratam, mesmo que nem sempre estejam dispostos a “perder tempo” nos escutando expor o que consideram ser meros “detalhes”. Se o intérprete é a voz do palestrante e a conferência o motivo da vinda deste, uma boa prestação é de suma importância para o êxito do evento.

Resta saber como fazer para que quem nos contrata tenha uma noção clara do que um intérprete ou tradutor precisa para entregar um serviço de alta qualidade e esteja ciente de que se trata de uma pedra fundamental para que tudo corra do jeito que planejou.

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