O Natal plural de uma terra chamada Brasil

Tempo de leitura: 5 minutos

O Natal plural de uma terra chamada Brasil

Damiana Rosa de Oliveira[1]

Minha avó montava todos os anos uma árvore de Natal muito excêntrica. Nela, pendurava tudo que em sua opinião fosse especial ou bonito. Para os desavisados, a árvore da vó Hermínia era só uns galhos sem graça recheados de cacarecos: mini liquidificadores de plástico, figuras de papai-noel de louça remendadas muitas vezes, florzinhas coloridas, balas, caixas de fósforo embaladas em papel de presente e tudo que tinha papel brilhante, além é claro de bastante algodão para reproduzir a neve, que em países tropicais não existe. Para os netos era pura festa. Para ela, símbolo de alegria.  Cada um tem o seu jeitinho especial de festejar o Natal. E o Brasil, este país grande e divino, apesar de falar a mesma língua, tem o seu jeitinho especial e plural de comemorar esta data.

Auto dos Quilombos (Google Imagens)

Nos quilombos do nordeste, comemora-se o Natal com uma encenação dramática, com muitos cantos e danças nas praças da cidade.  O auto dos quilombos é um folguedo tradicional, em que se reconstitui os núcleos povoados de escravos fugitivos do século XVII. Também nos estados nordestinos comemora-se com a “Chegança”, festa natalina que reconstituiu a luta entre cristãos e mouros durante a Idade Média. O auto da chegança é feito à base de declamações e cantos acompanhados de muita música e dança: “Entramos nesta nau de guerra, todos nós com muita alegria. Pra festejar o Nascimento de Jesus que é filho de Maria”

Marujada (Google Imagens)

O paraense tem dois natais:  além da tradicional festa de dezembro, comemoram em outubro o Círio de Nazaré: prepararam uma grande ceia com a maniçoba, o tacacá, o pato no tucupi e trocam presentes. É comum desejar “Feliz Círio!”.

Em algumas cidades do nordeste, a felicidade do Natal se expressa em danças rurais e alegres: a marujada. Uma delas, só para homens, é apresentada por um forte sapateado. Na outra, valsada, os casais dançam arrastando os pés no chão.

Festa de Natal brasileira

Em várias regiões do país, os Reis Magos saem pelas ruas anunciando o Natal, parando nas casas enfeitadas com presépios. É através do canto e da dança que anunciam a chegada do menino Jesus e são recebidos com uma ceia ou um lanche pelas famílias que visitam. Assim, compartilhando bênçãos e comida que comemoram a data. A festa é conhecida como “Folia de Reis” e vai do dia 24 de dezembro até o dia 02 de fevereiro.

Há famílias que até hoje seguem uma tradição nascida em Portugal no século XIII, a “lapinha”: reúnem a família diante do presépio para cantar músicas natalinas na noite do dia 24 para lembrar o dia que os Reis Magos foram visitar o Menino Jesus. Enquanto isso em Curitiba, a festividade é anunciada com luz e clássicos natalinos interpretados por um lindo coral de crianças.

Gato Basty encontrou o seu jeito de ser feliz no Natal.

Cada um possui a sua forma pessoal de se expressar no Natal, seja dançando, revivendo histórias, cantando, acendendo luzes, visitando casas. Hoje entendo que a minha avó se expressava através de sua árvore, colocando nela tudo o que lhe dava alegria e que lhe representava o nascimento de Jesus: mini liquidificadores para mostrar como gostava de reunir a família na cozinha;  a tradição das figuras de louça que estavam há gerações na família e que sempre se remendavam, representando a união e a força dos laços familiares inquebráveis. Florzinhas de plástico para enfeitar a árvore com as suas cores favoritas e assim colorir a vida; balas porque a vida precisa ter doçura. Caixas de fósforo repaginadas, ensinando que tudo pode ser transformando, só depende do nosso ponto de vista. Papel brilhante, representando seus sonhos mais bonitos. E a neve de algodão provando que nada é impossível.

https://es.pngtree.com/free-christmas-png

Que neste Natal de 2018 você possa expressar a sua alegria pelo nascimento do Menino Jesus do seu jeitinho único e especial, seja reunindo a família, ou meditando boas vibrações; seja dançando e cantando ou observando as luzes de Natal. Mas que possa sentir nascendo no seu coração, neste dia tão especial, o que te faz verdadeiramente feliz.

Autora: Damiana Rosa de Oliveira – Tradutora e intérprete de português e espanhol

[1] Graduada em Letras pela Universidade Metodista de São Paulo, é pós-graduada em Tradução-Interpretação Espanhol-Português na Universidade Gama Filho. Possui conhecimentos em história da arte (cursos de extensão no MASP).  Trabalhou na Cátedra UNESCO de Comunicação para o Desenv. Regional por 5 anos, onde desenvolveu atividades ligadas à pesquisa e extensão na área de Comunicação Latino-Americana. É tradutora de algumas obras (livros e artigos) ligadas à Cátedra UNESCO de Comunicação e pesquisa em comunicação, linguística, historiografia da tradução e cultura popular. Já efetuou trabalhos de revisão e tradução em espanhol e português, com vasta experiência na área (Ed. Paullus, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Editora da Universidade Metodista de São Paulo, etc.) É tradutora desde 2004 e autora do livro “A fantástica história (ainda não contada) da tradução no Brasil” escrito em parceria com Andreia Vazquez.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *